Qual crise mata as empresas jovens: a brasileira ou a dentro de casa?

Em 2018 vi, com certa frequência, empresas jovens encerrarem as atividades poucos meses depois de serem criadas. O problema aparente é sempre o mesmo: as vendas não superam os custos que o negócio precisa pagar todos os meses.

Não estou aqui para tentar mudar os fatos, que são baseados em dados, e dizer que o Brasil é um país amigável para empreender. Longe disso.

Mas, ao ver a morte prematura de empreendimentos que eu tinha alguma proximidade, passei a fazer algumas perguntas que, na minha visão, indicam que os problemas ocorreram muito mais por planejamento que se mostrou inadequado do que por culpa do governo, das leis trabalhistas ou da burocracia.

São elas:

⭐ Sua empresa realmente tem um diferencial?

💰 Em condições normais, seu produto ou serviço tem possibilidades de gerar uma renda mensal que pague todos os gastos fixos e ainda sobre pelo menos 10% do faturamento para reinvestir no negócio ou guardar para emergências ou meses de menos vendas?

🌎 Seu negócio precisa de uma sede física? Se sim, a localização e o tamanho do seu espaço realmente condizem com seu fluxo de caixa? Em outras palavras, qual é o ROI da sua sede?

As empresas jovens estão morrendo por falta de educação

Não há dúvidas de que os problemas econômicos do Brasil nos últimos anos dificultaram a vida do empreendedor brasileiro. 2018 foi o terceiro ano consecutivo em que mais empresas foram fechadas em comparação com o número de abertura de novos negócios.

Mas, neste artigo, proponho que façamos uma análise mais detalhada sobre outros pontos que vão além da crise econômica e da burocracia. Pontos esses que dificultam a jornada de sucesso dos empreendedores no país.

Segundo dados do Sebrae, em 2010, 60% dos novos negócios fechavam as portas até o segundo ano de existência. 60 a cada 100 novas empresas! E em 2010 o Brasil vivia um bom momento econômico, com o PIB chegando a 7,5%. Na época, um dos principais problemas era a falta de conhecimento administrativo, conforme o estudo.

Alguns anos se passaram, a crise econômica surgiu, o cenário político ficou cada vez mais incerto e, sim, o fechamento de empresas jovens continuou a todo vapor. O próprio Sebrae, em seu estudo mais atual (de 2016) a respeito de sobrevivência e mortalidade das empresas, aponta que não se pode atribuir a causa mortis de uma empresa a apenas um fator.

Estes pontos do estudo me chamam atenção:

  • O planejamento para lançar as empresas jovens que fecharam em seus primeiros dois anos de atividade durou, em média, 8 meses. Por sua vez, as empresas que seguiram abertas após os dois anos iniciais foram planejadas ao longo de 11 meses, em média.
  • Apenas 34% dos empresários que fecharam seus negócios em até dois anos se capacitou para administrar o negócio enquanto tinha a empresa. Em contrapartida, 51% dos donos de empresas jovens que ultrapassaram a marca de dois anos de atividade se capacitaram no período.
  • 78% dos donos do próprio negócio que foram fechados em até 2 anos se atualizavam a respeito das novas tecnologias do setor. Entre os empresários que ultrapassaram dois anos de atividade, a taxa é de 89%.

Com diferencial, mas sem planejamento adequado

Cito o caso de uma dessas empresas jovens que me chamou atenção. Um dos empreendimentos que fechou, com menos de 10 meses de existência, era uma cafeteria no bairro onde eu morei por 25 anos, em Porto Alegre.

A cafeteria tinha um diferencial: ser um ponto referência em cultura num bairro onde não há uma atmosfera cultural, digamos assim. Para isso, tinham uma pequena biblioteca que os clientes poderiam alugar livros, além de promover pequenos eventos culturais, como saraus e lançamentos de livros.

Mas somente ter diferencial não é tudo.

Os donos são amigos da minha mãe e contaram a ela que somente o aluguel do espaço custava R$ 1.500,00 por mês.

Façamos uma matemática rápida aqui: vamos dizer que um cappuccino e uma fatia de torta custem, juntos, R$ 15,00. A cafeteria precisaria vender ambos pelo menos 100 vezes somente para pagar o aluguel. É fácil? No meu ponto de vista, nem um pouco. Especialmente considerando que o ticket médio da cafeteria deveria ser menos de R$ 15,00.

Agora, some ao custo do aluguel despesas com luz, água, internet, telefone, fornecedores e os vencimentos de um funcionário. Tudo isso sendo gasto todos os meses!

Como falei antes, o bairro não possui um forte apelo cultural. Também não é um local que haja trânsito de pessoas a pé sem ser de moradores do bairro e de quem por lá trabalha.

Você imagina que um número significante de moradores tome café fora de casa todos os dias da semana? Eu acredito que não.

Os problemas aqui foram, na minha visão, gerados lá no início do negócio. Faltou colocar na ponta do lápis os custos fixos e fazer uma projeção realista – e outra pessimista – de vendas mensais.

 

Também era necessário avaliar o contexto local do bairro onde o negócio estava inserido.

Vemos muitos “especialistas” em finanças públicas palpitando na internet sobre o que os governos devem fazer para vencerem crises e honrarem compromissos como pagamento de salários em dia. Não estou dizendo que seja o caso desse casal empreendedor.

Onde fica a especialidade em finanças quando o assunto é o próprio negócio?

Como muitos costumam dizer, é preciso ter austeridade.

Uma empresa jovem fadada ao fracasso

Ser comentarista de resultado é fácil, não é? Sabendo disso, não vou comentar apenas o que deu errado. Vou me antecipar e analisar uma jovem empresa que, acredito, não chegará viva em 2020.

No dia 31/12/2018, a Stephanie e eu circulávamos por um shopping de Porto Alegre e nos deparamos com uma nova loja de games próxima a uma Saraiva. Era véspera de feriado e, sim, não havia cliente.

Na mesma hora pensamos: essa loja não vai durar nem um ano.

Nesse caso, o que irá matar a loja não será apenas os custos fixos. O aluguel em um shopping não deve ser nada barato, mesmo de uma loja pequena, como é essa em questão. Soma-se ao aluguel as despesas com luz, internet e o salário de, pelo menos, dois funcionários.

Vamos fazer um exercício hipotético: R$ 2.000,00 (aluguel) + R$ 2.800,00 (arredondando cada salário para R$ 1.000,00 mais encargos trabalhistas dos dois funcionários) + R$ 70,00 (luz) + R$ 120,00 (internet + telefone). Total mensal: R$ 4.990,00

Você pode estar pensando: mas se um videogame novo e atual custa em média R$ 1.500,00, se venderem três por mês a conta está praticamente paga.

Aí que entram outros problemas.

Além de estar localizado próximo à uma grande loja de varejo, que também vende eletrônicos, o empreendedor que abriu esse negócio pode ter subestimado algo muito importante: compras online.

Comprar por e-commerce é muito mais prático e, boa parte das vezes, mais econômico do que comprar em lojas físicas.

E, no segmento de games, há um outro agravante: os jogos também são vendidos digitalmente por meio das lojas dos consoles ou de plataformas como a Steam. Além disso, jogos digitais costumam ser mais baratos e, em alguns casos, é possível comprar em lojas digitais do exterior com preços mais acessíveis por conta de menos impostos sobre os itens.

Não estou dizendo que todas as lojas de games estão com os dias contados. Muitas são fortes no mercado porque organizam ações, como campeonatos de jogos de futebol, participam de eventos de terceiros ou agregam outros produtos da cultura pop no seu marketplace. Isso sem falar daquelas que, além da venda física, também vendem por e-commerce…

Educação empreendedora e planejamento para evitar problemas em casa

Em plena Era Digital e com tantas startups surgindo, é uma lástima que a taxa de mortalidade de empresas jovens siga tão alta. Felizmente vivemos em um período de livre informação e de fácil acesso! Por isso, o aprendizado está cada vez mais a um clique de distância – muitas vezes gratuitamente!

Muito antes de lançar seu produto ou serviço, lembre-se de que planejar o negócio é fundamental! Não se deixe levar pela ânsia de lançar algo porque acredita que o mercado pode roubar sua ideia.

É preciso haver equilíbrio entre agilidade e planejamento.

Lembre-se de um dos dados do Sebrae apresentado anteriormente: mais empresas jovens que se planejaram por mais tempo estão vivas, quando comparadas àquelas que se lançaram ao mercado com menos meses de planejamento.

Durante o planejamento, vá além da Matriz SWOT e da criação de identidade visual. Se for um negócio com sede física, olhe ao seu redor, conheça sua vizinhança, entenda os hábitos não apenas do seu público, mas da comunidade onde o negócio for se inserir.

Se sua empresa vende produto(s), pense como clientes da Era Digital: você sairia de casa para comprar algo ou compraria pela internet? Também busque essa resposta com amigos e pessoas que sejam similares ao seu público-alvo.

Planeje sua atuação na internet e nas redes sociais não apenas para marcar presença. Entenda cada ambiente como canais para um bom trabalho de branding e para relacionamento com os usuários. Produza conteúdo adequado a cada plataforma.

Conheça o potencial de anúncios no Google e em cada rede social. Estruture toda sua presença digital de forma amigável para que as conversões ocorram, se o seu caso envolver venda online. Deixe bem claro informações básicas como endereço, horário de funcionamento e formas de contato.

Se sua empresa não precisa de ponto de venda, expanda sua mentalidade e considere a possibilidade de atuar em coworking ou home office. Pergunte-se: ter escritório físico significa ter (mais) conversões?

Planeje também quando você espera que o negócio comece a dar lucro. Seja realista no seu prazo e honesto de acordo com suas necessidades pessoais e empresariais.

Acredite, isso tudo precisa ser feito muito antes da véspera do lançamento da marca.

2 comentários em “Qual crise mata as empresas jovens: a brasileira ou a dentro de casa?

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