Como 11 donos de pequenos negócios estão lidando com a pandemia

Que a pandemia do novo coronavírus afetou a economia global não é novidade. Dos grandes conglomerados aos pequenos empreendedores, poucos foram os segmentos não afetados ou beneficiados pela crise. É natural que donas e donos de pequenos negócios se sintam perdidos neste momento.

É comum vermos referências de como grandes empresas estão lidando com as dificuldades atuais. Isso, porém, nem sempre beneficia empreendedoras e empreendedores que fazem das tripas coração para manter vivos seus negócios, pagando em dia funcionários e fornecedores. Ao contrário, pode até agravar a ansiedade.

Para ajudar a mudar esse cenário e trazer referências aplicáveis, conversei com 11 representantes de pequenos negócios para entender como estão lidando com a crise para manter vivos seus empreendimentos. São empreendedoras e empreendedores de segmentos como produção de conteúdo, escrita, comércio, luxo, consultoria de negócios, varejo, aromaterapia, turismo, educação, estética e farmácia.

Acredito que a variedade de exemplos pode servir de inspiração para você encontrar soluções práticas para aplicar em seu negócio neste difícil momento. Espero que este artigo lhe seja útil!

Sem mais delongas, vamos às histórias.

Fernanda Knebel (Quíper Fresh)

Acostumada a viajar pelo Brasil participando de eventos de empreendedorismo e fechando negócios com o varejo físico, Fernanda Knebel precisou mudar drasticamente o foco. Segundo ela, a pandemia cancelou diversas feiras e eventos. Dessa forma, o varejo passou a priorizar a compra de produtos essenciais para atender a demanda, fechando espaços para produtos de utilidades domésticas.

A Quíper Fresh produz o Morango Azul, um produto que prolonga em até 3 vezes a vida de frutas, legumas e verduras. O sachê dentro do Morango Azul impede a produção de gás etileno, substância responsável pelo amadurecimento dos alimentos.

A empresa já estava nas redes sociais, mas o foco dos negócios era o offline, especialmente a venda direta para supermercados. A quarentena obrigou Fernanda a adaptar o modelo de negócios para tornar a Quíper Fresh 100% digital.

Fernanda definiu novas estratégias e optou por criar um novo site – www.morangoazul.com.br – focado na venda direta para o consumidor final. Ela afirma que a Quíper Fresh se aproximou muito dos consumidores devido ao coronavírus.

“A gente está super ativo no Instagram Stories, que era um local que a gente não conversava, e isso já está gerando bons retornos, não financeiros ainda, mas estamos conhecendo melhor o nosso público, quem quer se comunicar com a gente, o que eles querem ver”, relata.

A empreendedora também detalha que aumentaram as vendas por indicação nas redes sociais. Para aproveitar, Fernanda passou a apostar também em Marketing de Afiliados. “Isso pode ser uma boa porque tem gente que sabe fazer campanha, sabe marcar direitinho o público-alvo das campanhas. Os afiliados têm a porcentagem de ganho deles, e a venda cobre os nossos custos. Como eu tenho o estoque parado, é isso que eu preciso fazer”, explica.


Raylane Freitas (Beleza Pura)

Farmacêutica e pós-graduada em Saúde Estética, Raylane Freitas abriu seu próprio espaço em Porto Alegre em janeiro deste ano. Só que logo de cara ela percebeu que a vida dos pequenos negócios não é nada fácil. O primeiro grande desafio da empreendedora veio dois meses após o Beleza Pura ganhar sua sede.

Assim que os primeiros casos de coronavírus foram identificados na Capital gaúcha, Raylane decidiu fechar seu Studio de Beleza e Estética Avançada por 10 dias. Após, reabriu seguindo as orientações do decreto da prefeitura e observou um pico de atendimentos. Entretanto, isso durou pouco.

“De uma maneira geral, os atendimentos presenciais tiveram uma redução entre 70% e 80% em relação ao normal, nos impulsionando a criar novas estratégias de negociação com os clientes”, conta. Segundo ela, os tratamentos estéticos que estavam em curso tiveram paralisação quase total.

A aposta dela foi em ampliar a produção de conteúdo nas redes sociais, vender vouchers de serviços para serem usufruídos após a quarentena e criar a corrente do bem. Os canais de conteúdo, relacionamento e vendas são o Instagram, o Facebook e o WhatsApp.

“As vendas online por meio de voucher representaram um aumento de aproximadamente 40% nas vendas. Os serviços mais básicos como manicure, pedicure, sobrancelha e corte de cabelo foram os que tiveram maior procura durante o período”, revela. Os bons resultados foram frutos da resposta ágil da Raylane frente à crise que se aproximava.

“Logo no início do período de isolamento social publiquei uma campanha chamada ajude seu amigo empreendedor neste momento de crise e ganhe descontos nos serviços. Para o cliente garantir essa condição especial, ele adquire o serviço por meio de voucher fazendo o pagamento de um sinal ou valor total. O restante do pagamento, quando houver, é realizado no dia do atendimento, após passar o período de quarentena”, detalha.

Os benefícios não se limitam às clientes atendidas e às finanças do Beleza Pura. A empresa também está focada em ajudar o próximo. A corrente do bem criada por Raylane dá 10% de desconto nos serviços a clientes que doarem 1kg de alimento em abril.

O Beleza Pura também reforçou parcerias. “Muitas dessas promoções foram criadas em conjunto com outras profissionais da área e que já trabalhavam conosco. Ofertar atendimentos combinados permitiu deixá-los mais atrativos e ampliar a rede de alcance de clientes por meio do compartilhamento nas redes sociais destas profissionais”, complementa.


Marcelo Tovo (Multiplataforma Onne)

Marcelo Tovo é um dos sócios da Multiplataforma Onne, empreendimento do mercado do Novo Luxo composto por diversos produtos. São eles: Revista Onne & Only, Onne Digital, Onne Eventos, Onne Learning, Fórum Onne Luxo e Onne TV.

Tão grande quanto o portfólio de produtos da Onne é o prejuízo que a crise causou. “A pandemia afetou os negócios de maneira absurda, causou um prejuízo estratosférico pra gente”, desabafa Marcelo.

A Revista Onne & Only é uma publicação semestral cujos principais diferenciais são a qualidade do acabamento gráfico e os coquetéis de lançamento no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A edição do primeiro semestre de 2020 foi lançada oficialmente em Porto Alegre em dezembro do ano passado. A divulgação em Santa Catarina estava prevista para o fim de março na Artefacto, loja de móveis de alto padrão em Florianópolis.

Marcelo explica que o cancelamento do evento dificultou um pouco o planejamento para trabalhar a revista em solo catarinense: “A Artefacto é uma das maiores redes de decoração do mundo, de altíssimo padrão. Nós íamos lançar a revista em Florianópolis para imprensa, influenciadores, VIPs, um evento super bacana que estava agendado para 26/03 e tivemos que cancelar”.

Na Onne Learning, segmento de cursos e palestras, já estava definido para maio um curso no Hotel Sheraton, em Porto Alegre. O evento contava com dois grandes patrocinadores, mas teve de ser cancelado.

Por sua vez, a terceira edição do Fórum Onne Luxo teve seu planejamento pausado. Os sócios estavam negociando se o evento ocorreria em Porto Alegre (local da primeira edição, em 2018), ou em Gramado (onde ocorreu o segundo evento, em 2019). “Sequer temos data de quando poderemos lançar. Está completamente indefinido se vai ter esse ano ou não”, afirma.

Campanhas solidárias e aceleração de projetos digitais

O planejamento de novas iniciativas é igualmente proporcional ao prejuízo causado à Multiplataforma Onne.

Desde setembro de 2019 a Revista Onne & Only conta com o Onne App, uma plataforma que mescla rede social, notícias do site e a versão digital da publicação. Entretanto, a pandemia deve trazer melhorias na experiência de consumo online.

“A gente está fazendo uma campanha nacional do Onne App, ainda não da maneira como a gente gostaria de fazer, porque a pandemia também atrapalhou isso, mas a gente está tentando otimizar os canais da Onne Digital já pensando na próxima edição”, conta Marcelo.

A Multiplataforma Onne aliou a expansão digital com uma ação solidária: a Onne For All.

Pequenos negócios foram os mais afetados pela pandemia, mas há vários empreendimentos que mostram resiliência e servem como referência para superar a crise
Reprodução / Coluna Social do Jornal do Comércio

“Todos saem ganhando, quem divulga, quem segue nossas plataformas digitais e nós da Onne, que de alguma forma podemos contribuir para que os efeitos danosos na economia possam ser amainados. E, que acima de tudo, possamos estimular a consciência cidadã, saindo mais fortes desta crise”, defende a divulgação oficial da ação.

Micro e pequenos negócios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina podem ser divulgados gratuitamente no Facebook e no Instagram da Revista Onne. Para isso, envie texto com até 800 caracteres (com os devidos contatos) e imagem JPG com 300 dpi para atendimento@revistaonne.com.br.

Além da Onne For All, a Multiplataforma Onne também vai contatar quem é ou já foi cliente da Onne para verificar outras formas de como a empresa pode ajudar.


Rodrigo Mu (OriginalMu)

Menos baixos e mais altos. Assim está sendo o cenário para o publicitário Rodrigo Mu. O impacto começou reduzido porque ele já trabalhava em regime home office. Apesar de perder dois clientes – um local de eventos e um escritório de arquitetura -, as iniciativas de Rodrigo são bastante inspiradoras.

“Desde o início o ano passado, faço consultoria de marketing digital e inteligência comercial, a OriginalMu. Atualmente, estou tocando três empreendimentos, sendo que dois começaram na primeira semana de quarentena. Os negócios aceleraram muito, principalmente no volume de trabalho”, explica.

Rodrigo conta que a demanda por criação de sites, e-commerces e campanhas para impulsionar vendas online aumentou muito. Além disso, muitos pequenos negócios precisaram repensar a atuação para se adaptar à nova realidade. “O mais complexo foram os colégios e cursos pré-vestibulares. Da noite pro dia tivemos que adaptar tudo, está bem intenso”, pondera.

Mesmo com a intensidade e a incerteza no ar, ele não hesitou em levar adiante os novos empreendimentos. Um dos novos negócios é uma consultoria focada em B2B. “Estamos rodando a fase beta ainda com clientes selecionados, mas a receptividade do mercado está excelente! Acredito que não há mais volta para o modelo de venda que não seja digital“, ele afirma. E eu concordo.

A outra iniciativa é uma plataforma. Rodrigo relata que um professor havia lhe pedido para fazer um aplicativo em que ele possa publicar listas de exercícios para os alunos. “Juntei uma equipe para isso uma semana antes do início da quarentena. Acredito que o timming foi muito bom também porque os meus parceiros programadores estão em casa e o mercado de educação está muito mais ligado em ferramentas digitais“, conta.

Modelo de trabalho expandido e remodelado

Rodrigo tomou uma série de medidas para dar conta de tudo. Primeiramente, contratou uma assistente freelancer para lhe ajudar nas demandas.

No relacionamento com clientes, ele aumentou o prazo para pagamento de alguns sites. Nas consultorias, deixou de visitar a clientela uma vez por semana. Em contrapartida, aumentou o número de reuniões semanais mais curtas e começou a realizar algumas no estilo stand-up meeting via grupos de WhatsApp. Nesse formato, cada um tem 3 minutos para dizer o que vai fazer na semana.

“Acho que o principal que estou fazendo é estar menos tempo online. Muitos clientes estavam me ligando em horários fora do expediente, tipo 22h. No início estava atendendo, trabalhando até tarde e virando noite. Mas daí notei que eu estava entrando na insegurança que eles estavam com seus negócios e comecei a impor alguns limites“, pontua.


Escolas privadas do Rio Grande do Sul

A educação foi um dos setores mais afetados pela pandemia no Brasil. Nosso país sequer engatinhava no preparo para adoção de ensino doméstico, também chamado de homeschooling.

Diante desse cenário, fiquei muito curioso para saber como instituições de ensino, em especial escolas de ensinos fundamental e médio, estão atuando na quarentena. Ao conversar com Rodrigo Mu, e ele mencionar os impactos da pandemia junto aos seus clientes desse ramo, ficou ainda mais evidente que iniciativas da educação deveriam fazer parte deste artigo, mesmo não sendo necessariamente pequenos negócios.

Sindicato do Ensino Privado (SINEPE/RS)

No Rio Grande do Sul, desde 18 de março de 2020 as escolas estão autorizadas a realizar atividades da Educação Básica remotamente durante a pandemia.

Dessa forma, diversas instituições de ensino precisaram rapidamente investir em tecnologia para melhor atender a comunidade escolar, segundo me informou a assessoria de imprensa do Sinepe/RS. Também foi necessário ampliar a capacitação de professores, a fim de lidar com sabedoria nesse cenário desafiador.

De acordo com o sindicato, 98,4% das instituições gaúchas associadas estão atendendo os alunos remotamente. Entretanto, a inovação fica por conta do formato e da tecnologia utilizada, pois os conteúdos são os mesmos ensinados em sala de aula.

“O planejamento precisa estar coerente com o Plano Orientador das Práticas Pedagógicas (POPP), Planos de Estudos ou com o Plano de Curso, de acordo com a etapa que a escola oferece. São esses documentos curriculares que contêm os objetos de conhecimento traçados pelas escolas para serem desenvolvidos à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)”, explica a assessora pedagógica do SINEPE/RS, Naime Pigatto.

Segundo publicação do sindicato, a Escola Santa Mônica, de Pelotas, antecipou a adoção da plataforma Office 365. Por sua vez, o Colégio Evangélico Alberto Torres, de Lajeado, passou a usar a plataforma Google Classroom para promover a interação entre professores e alunos.

Ambas iniciativas têm como objetivo manter o ritmo de estudos dos alunos e cumprir com os dias letivos e a carga horária previstos por lei.

Outro exemplo de que os tempos mudaram – e talvez isso signifique uma conversa mais séria a respeito do homeschooling a partir de agora – é esta afirmação de Naime: “Precisamos pensar e agir diferente sobre algo que a gente sempre conhecia, onde tudo era planejado para ser desenvolvido em períodos com determinado tempo de duração, que agora com as atividades domiciliares passa a ter uma contagem de tempo subjetiva, e isso não implica em aprender mais ou em aprender menos, mas aprender dentro de uma nova lógica. E essa nova lógica implica em continuar com o ensino de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais”.

Você que é mãe ou pai, gostaria de saber sua opinião nos comentários do artigo.


Luciane Costa (jornalista e estrategista em marketing e conteúdo)

Luciane Costa é outra pequena empreendedora que está vivendo altos e baixos. Ela perdeu três clientes recorrentes, mas teve segurança financeira porque todos respeitaram o aviso prévio de um mês que ela coloca nos contratos.

Como forma de equilibrar as finanças, a jornalista conquistou trabalhos menores de gestão de crise, algo muito necessário neste momento. Entretanto, a soma de trabalhos pontuais está a deixando em um ritmo de trabalho acelerado.

“Tem sido desafiador também porque estou dando suporte aos clientes nessa adaptação, então do lado pessoal não sobra muita energia para lidar com tudo o que está passando. Sinceramente, sinto falta de poder parar e desacelerar, sabe? Mas também entendo que vai passar”, reflete.

Flexibilidade é uma das palavras de ordem para Luciane. Ela afirma que está sendo flexível de acordo com as necessidades de cada cliente, eventualmente revisando escopos de trabalho. Além de sair bem da crise, a comunicadora defende que está fazendo o possível para que os clientes também superem as dificuldades da melhor forma possível: “Tenho buscado mais manter as relações que já tenho construídas do que sair em busca de novos clientes“.

Como já falei, a vida dos pequenos negócios não é nada fácil. Como profissional autônomo, o desafio pode ser ainda maior. A Luciane relata bem a vida de freelancer no Vivendo de Freela. Recomendo!


Matheus de Souza (escritor e nômade digital)

Sim, sou privilegiado por poder trabalhar de forma remota em meio ao caos, mas o novo coronavírus me mostrou que a liberdade do jeito que eu achava que conhecia e vivia, a liberdade plena, não passa de utopia.

Matheus de Souza em post no Instagram

Ao ver esta publicação do Matheus no Instagram, compartilhando um pouco da sua situação na Tailândia, decidi entender mais sobre como a pandemia afetou seus empreendimentos. Para quem não sabe, Matheus de Souza é escritor, nômade digital e um dos LinkedIn Top Voices 2016.

Se o termo nômade digital é uma novidade para você, vou explicá-lo rapidamente: são profissionais que conseguem exercer suas funções de qualquer lugar do mundo tendo um bom sinal de internet e computador, tablet ou smartphone. Geralmente o nomadismo digital é praticado por trabalhadores das áreas de produção de conteúdo, educação, informática e outros setores da indústria criativa.

Acompanho o Matheus desde que ele conquistou o título de Top Voice. Desde então, ele transitou pelo empreendedorismo, marketing digital, nomadismo digital, crônicas… É bem legal acompanhar a evolução profissional do cara.

Ele é um dos poucos casos em que a pandemia não afetou (ainda) os negócios. “Eu trabalho de forma remota há três anos, então a rotina segue a mesma. O que mudou é que estou em quarentena, é chato não poder sair de casa. Só isso”, afirma.

Mesmo ele sendo completa exceção no artigo, optei por manter a história dele porque acredito que, de agora em diante, você vai passar a ouvir falar mais em trabalho autônomo, freelancer e nomadismo digital. Se a quarentena afetou sua vida de modo que lhe deu mais tempo para refletir sobre suas prioridades, talvez a autonomia possa ser um estilo de vida no futuro.

“Tenho aproveitado pra escrever meu novo livro. E, sobre trampos, nada mudou. Eu não faço mais freelas, minha fonte de renda hoje são os cursos online e, curiosamente, eles venderam até mais do que nos dois primeiros meses do ano. Não sei até quando isso vai se manter, mas tenho uma reserva financeira pra caso seja afetado”, ele me disse por e-mail.

Perceba: ele construiu o patamar de vida dele há pelo menos três anos. Digo pelo menos porque foi necessário um preparo anterior à vida de freelancer, especialmente financeiro. Tanto que ele afirma ter uma reserva financeira para o caso de dias complicados.

Faço questão de pontuar isso porque é na dificuldade que aparece muita gente com promessas mágicas de dinheiro fácil e rápido. Não existe fórmula mágica.

Prepare-se financeiramente caso você passe a considerar a vida como autônomo ou nômade digital. Especialistas em finanças pessoais afirmam que é fundamental ter pelo menos o equivalente a 6 meses do seu atual salário antes de empreender. Eu fiz isso antes de me tornar autônomo full-time em 2019.


Guilherme Conte (administrador)

A história de Guilherme Conte, proprietário de uma distribuidora de alimentos em Porto Alegre, é um contraste interessante de tudo o que você leu até aqui. Logo mais você entenderá por quê.

Ele afirma que está melhor preparado para enfrentar a pandemia porque a greve dos caminhoneiros, ocorrida em 2018, foi o maior desafio da sua empresa.

Ciente dos problemas que estavam por vir, Guilherme liberou quatro dos 15 funcionários para que trabalhassem de casa, pois são pessoas do grupo de risco. Não rompeu contratos nem cortou salários. O restante da empresa passou a adotar as medidas de segurança orientadas pelos órgãos de saúde.

Ele relata que todas as semanas se reúne com o grupo de funcionários para receber feedbacks dos atendimentos externos realizados no período. Graças a essa iniciativa rotineira foi possível identificar quem tinha receio de seguir trabalhando durante a pandemia.

Segundo Guilherme, ele preconiza pelo senso de proximidade entre a equipe: “Somos uma pequena família. A gente entende os funcionários como pessoas que estão brigando pelo mesmo sonho que a nós. Às vezes a simplicidade é mais efetiva, especialmente para pequenos negócios“.

O administrador me conta que sua cartela de clientes é composta por minimercados, mercados de bairro, padarias, confeitarias, mercearias, farmácias e colégios. Muitos fecharam por falta de demanda ou por instrução governamental.

Aqui começa o contraste: as vendas são feitas por vendedores externos. O olho no olho é essencial. Vender pelo telefone é muito difícil, e por meios digitais a clientela não adere. Guilherme afirma que o mercado é “muito tradicional”.

Quem passou a usar WhatsApp e redes sociais pessoais são os vendedores do grupo de risco que estão trabalhando remotamente, mas ele conta que os resultados são limitados. O restante segue o ritmo de visitar a cartela de clientes. “Se dependesse só de canais alternativos, a margem de lucro seria muito baixa”, destaca.

70% da base [de clientes] está trabalhando, tentando seguir o fluxo normal. Quem continua trabalhando e precisa repor, o melhor jeito é recebendo vendedor. Uma minoria mantém contato pelas redes sociais e WhatsApp”, declara.

Estar ao lado do cliente é o diferencial

Em um segmento “muito tradicional”, a proximidade segue importante. O que mudou é que agora há regras de saúde e distanciamento social que precisam ser respeitados.

Guilherme confidencia que começou a pandemia imaginando uma situação ainda pior do que o que ocorreu. Segundo ele, por enquanto o cenário é menos pior do que pensou que seria. E explica que a maior dificuldade está sendo com fornecedores que pararam ou atrasaram entregas.

Uma multinacional do setor alimentício atrasou a entrega em 21 dias, por exemplo. De acordo com o administrador, há muita perda de tempo por conta de pedidos cancelados que precisam ser refeitos.

Os clientes são pequenos negócios assim como a distribuidora. A principal forma de pagamento deles é o boleto. Guilherme revela que tomou medidas para apoiar cada um dos parceiros comerciais que estão passando por dificuldade.

Primeiramente, comprou álcool gel, máscaras e luvas das farmácias para as quais ele costuma vender. Ele se tornou consumidor de quem costuma ser seu cliente.

Outra ação de Guilherme foi não protestar os títulos de clientes que atrasam boletos. “Alguns clientes que nunca atrasaram começaram a atrasar. Foi preciso criar uma força-tarefa para ajudar a retirar juros e multas que são automáticos dos bancos nos casos dos atrasos”, explica. Nos casos em que não é possível retirá-los, a distribuidora está revertendo os valores em bonificações ou descontos em compras futuras.

Ele revela que o objetivo é focar mais no serviço e menos no lucro, pois considera essencial minimizar perdas ou fechar no zero a zero, enquanto torce para que nenhum cliente feche as portas. “A gente sempre ganhou os clientes com a fidelização, e agora estamos fazendo todo o possível pra estar próximo e ajudar os nossos clientes“, conclui.


Michely Westphal (Social Media freelancer e Essenziale)

De modo geral e até meio estranho, o isolamento nos ajudou a organizar as ideias e colocar na balança o que realmente queremos mostrar em relação ao nosso trabalho, e de que forma podemos atrair as pessoas em meio à situação do coronavírus e, principalmente, depois dele.

Michely Westphal trabalha como Social Media freelancer para clientes de diferentes segmentos. Em alguns casos, ela divide as demandas com o marido, Guilherme Testa, especialmente em coberturas de eventos. Com a pandemia, os trabalhos externos deixaram de existir.

Além disso, algumas empresas para as quais prestam serviços decidiram pausar os trabalhos. Essas rupturas foram importantes para que o casal empreendedor revisse o formato de trabalho, a fim de evitar que desistências prejudiquem as finanças.

Mas não só o modelo de negócios foi repensado. A pandemia também serviu para desenvolver um projeto até então embrionário: a Essenziale, produtos artesanais de beleza, higiene e aromaterapia cruelty free que ela cria junto com a sogra. “A Essenziale já existia, mas não era uma prioridade porque os clientes tomavam muito tempo, e eu acabava focando mais neles do que nos meus projetos. E no final eu não conseguia fazer muita coisa”, revela.

Michely conta que está ampliando conhecimentos nas áreas de comunicação, marketing digital e aromaterapia. Ou seja, está contemplando duas áreas e se encontrando cada vez mais em ambos mercados.

“Ao contrário do que eu sempre achei, ter duas profissões pode ser uma coisa muito bacana, pois no momento em que uma coisa nos entristece e pode não estar muito bem, a outra pode ser uma salvação. E tem sido exatamente assim”, destaca, ao falar sobre o equilíbrio que trabalhar em segmentos diferentes está trazendo à rotina.


Tatiana Feldens (jornalista autônoma)

Conheço a Tatiana Feldens – mais conhecida como Tati Feldens – desde 2011. Ela foi minha primeira coordenadora no Jornalismo, quando fui estagiário dela na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Desde então, já nos encontramos profissionalmente muitas vezes. Inclusive fomos colegas na Especialização em Jornalismo Digital da PUCRS.

Explico isso porque sei bem o potencial de empreendedora serial que ela tem. Muito mais do que uma competente assessora de comunicação, a Tati tem um networking riquíssimo e uma incrível habilidade para executar ideias de sucesso. Vocês vão entender isso a partir de agora.

A Tati já trabalhava remotamente antes da pandemia, revezando seu escritório entre o apartamento em Porto Alegre e clientes em São Francisco de Paula (RS) e São Paulo.

Atualmente, os clientes que ela atende são: Parador Hampel (Grupo Bah) e My Growler (ambos no RS); Verissimo Bar, Quintana, Padoca do Brique, Napoli Centrale, C6 Burger e Distrito Urbano (todos de São Paulo, integrantes do Grupo Bah, administrado pelo Chef Marcos Livi). Com a quarentena, dois trabalhos foram pausados por tempo indeterminado: El Tonel e Frigorífico Silva (ambos no RS). Mesmo durante a pandemia, a Tati conseguiu um novo cliente: Pampas Prime, também gaúcha.

O Parador Hampel é um hotel em São Francisco de Paula. As demais empresas são do ramo alimentício. Ou seja, duas áreas muito afetadas pelo coronavírus. Apesar da crise, ela garante que há muitas oportunidades para pequenos negócios gastronômicos.

Em partes mudou bastante meu dia a dia e eu tenho a sensação de que estou trabalhando muito mais do que antes. Se antes a gente tinha algo mais voltado pra dentro, que era receber o cliente nos espaços, nos restaurantes principalmente, agora a gente precisa mudar a estratégia e a comunicação porque a gente precisa ir até a casa do cliente.

A Tati é enfática: Agora a gente precisa, mais do que nunca, ser diferente para poder ser visto e comprado.

Receitas práticas para se diferenciar no mercado

A Tati e as empresas do Grupo Bah lançaram duas campanhas que estão trazendo importantes resultados. A primeira tem como objetivo angariar fundos para manter os negócios funcionando e os salários em dia. A solução construída foi o projeto #TamoJunto.

O #TamoJunto consiste em vouchers que o cliente compra agora por valores com descontos atraentes e têm até um ano para utilizar. Há opções que dão até 50% a mais do valor comprado para consumir nas empresas participantes.

A segunda ação teve início no Parador Hampel. Chamada de Hampel em Casa, moradores da Serra Gaúcha compravam marmitas à moda antiga e recebiam em seus lares. “A experiência foi tão positiva que a gente acabou expandindo para São Paulo. Do Hampel fomos para São Paulo, e lá Verissimo, Quintana, Distrito Urbano e Padoca do Brique estão entregando marmitas à moda antiga na casa das pessoas”, destaca.

Marmita à moda antiga do Parador Hampel

Em Porto Alegre, as janelas viraram palco de uma celebração inusitada. A Tati e a My Growler, empresa especializada em cervejas artesanais, idealizaram o Happy Hour na janela. Há quatro sextas-feiras seguidas, sempre às 20h, as pessoas têm ido às janelas brindar a distância pelo fim de mais uma semana com saúde.

“Ó, acabou a semana, foi dureza, mas bora comemorar, tentar de alguma maneira replicar um clima divertido de bar em casa. E isso deu tão certo com adesões em vários lugares que a gente replicou na semana seguinte, e na seguinte, e na seguinte”, relata.

A cereja do bolo das receitas da Tati é esta: “É possível sim ganhar dinheiro em meio a crise. É possível sim ser feliz em meio a crise. Então tem notícias boas aí, tem gente bastante criativa pensando e fazendo coisas muito legais”, finaliza.


Eduardo Lopes (empreendedor em Portugal)

Chegamos à última história! Você viu que eu mencionei o networking na história anterior, né? Eu acredito muito no networking genuíno, em que o foco é a troca de conhecimentos entre duas ou mais pessoas.

Trago a história do Eduardo Lopes graças ao networking. Ele e eu fomos alunos do curso de Marketing Pessoal e Produção de Conteúdo no LinkedIn ministrado pelo Matheus de Souza (sim, ele também está no artigo). Me deparei com este texto do Eduardo em que ele faz importantes reflexões sobre o home office na pandemia. Achei a história interessante e decidi conversar com ele.

O Eduardo mora em Portugal e tem uma empresa que presta serviços de transporte para a Uber, Bolt e Kapten. Segundo ele, lá essa atividade é regulamentada por lei. Por isso, ele estava adquirindo mais veículos para iniciar os passeios turísticos e transfers do e para o aeroporto.

Com a pandemia, ele suspendeu as operações turísticas e o faturamento chegou a zero (e segue zerado). “Por hora não há como continuar na ativa, pois não há demanda. Aqui estamos em estado de emergência e todos respeitam, e não há motoristas dispostos a correrem o risco para trabalharem fazendo entregas para os mercados – que foi a opção criada pela Uber e Kapten para esta situação, mas pelo que ouço também está muito fraco”, explica.

Atualmente ele está buscando alternativas para aproveitar os veículos adquiridos e expandindo networking para identificar novos negócios fora do ramo turístico.


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5 comentários em “Como 11 donos de pequenos negócios estão lidando com a pandemia

  • Muito boa e esclarecedora a abordagem com os empreendedores, e suas atitudes para contornar e tentar minimizar a crise do coranavirus. Parabéns!

  • Parabéns pela matéria querido Alysson, muito informativa e cheia de idéias animadoras.Tens o dom de escrever com clareza e objetividade.Vamos enfrentar essa crise juntos , criativos e diferenciados.Beijos❤😘😷🙏

  • O momento atual realmente é difícil. Nos leva a pensar em muitas coisas como o modelo econômico e cultural do país e suas capacidade. Espero que, quando isso tudo passar, possamos ter um sistema mais saudável, estável e que vise a distribuição de bens e o acesso de condições para todos.

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